Cidade…Joga a bola para aqui, joga, joga, dizia a criança de calças rotas,
com os dedos dos pés a espreitar pela “janela” dos velhos ténis,
ali mesmo a dois passos do centro “yupee” da Cidade. Sim,
porque apenas dois passos separam o inumano viver, do faustoso aparente.
…E a bola de borracha gasta e rota, arrastou-se por entre lama e excrementos,
enquanto o turista de máquina em punho, perpetuava o registo dos momentos,
entre o esboçar de um sorriso de estranheza e o olhar incrédulo de um recomeço de caminho desastrado, pisando dejectos que ali não deviam estar,
olhando o sapato, esfregando-o e tornando a esfregar.
Ah Cidade, Cidade, onde o figurativo “piroso” em versão reproduzida, se vende
como se de arte se tratasse.
Cidade da tristeza
dos arrogantes inergumenos,
que por carências mentais, com dificuldade terminaram o ensino oficial
e se arrogam do direito de opinar sobre qualquer assunto ou tema,
como se de especialistas se tratassem.
Cidade da vaidade desmesurada,
onde o parecer,
vale mais do que o ser…
….e é o fato e a gravata e o sapato fino e as calças de marca,
o blusão a condizer e de marca também,
porque o vizinho também tem…
…ou, não vá a vizinha criticar
ou pensar,
que seja provável, que não se tenha o dinheiro,
que afinal se não tem…
…Não podemos ficar atrás,
vamos trocar de carro, este já não agrada
e temos de comprar fato novo para as Festas
e para mim um vestido, uns sapatos, uma mala…
…Por favor vê se o empréstimo ainda dá para um fio de ouro, uma pulseira, ou pelo menos um anel…
…não posso sair assim, que iriam dizer ou pensar as minhas amigas?
…Aí… hoje tive um dia tão cansativo,
corri quatro pastelarias,
não há nada chique onde se possa ir…… olha, tu, vê lá se mudas aí o canal da televisão, quero ver a novela, só bola, só bola, nem uma pessoa pode ver nada… “Joquenito pára queto
Foto e texto de Silvestre Raposo